segunda-feira, 10 de julho de 2017

Deus do conreto

(...) qualquer religião que professe uma preocupação com as almas dos homens, mas não esteja igualmente preocupada com as favelas a que estão condenados, com as condições econômicas que os estrangulam e com as condições sociais que os debilitam, é uma religião espiritualmente moribunda, que só falta ser enterrada. Já se disse muito bem: Uma religião que termina no indivíduo é uma religião que termina. (Martin Luther King)

Ter tido espontâneo contato com as escrituras desde a infância sempre foi motivo de orgulho para mim, e a cada dia me convencia de que a soma resultante dos meus devocionais e de tudo o que ouvia na instituição religiosa que frequentava seriam suficientes para que eu entendesse as palavras do Eterno. Eram compreensões desvinculadas da minha relação com as pessoas, de uma análise da sociedade; uma fé baseada exclusivamente no plano espiritual. Deus estava lá, não aqui, se preocupava com o invisível, o visível era problema dos homens que se recusavam a ouví-lo. Eu nada tinha a ver com a Terra, era um cidadão do céu, e deveria perder a minha vida aqui para viver lá. Fugir disso era me corromper com o mundo. Ledo engano. 

Por escolher uma graduação que não era oferecida em minha cidade, saí de casa pela primeira vez. Morar sozinho e começar a trilhar a estrada acadêmica foram grandes instrumentos para um processo de mudança das minhas convicções em relação a muitas coisas, sobretudo, a minha forma de ver Deus. Por estar longe da instituição religiosa que sempre frequentei, fui condicionado a aprender com o Eterno no meu dia a dia como nunca antes. E eu O encontrei nas minhas relações com pessoas dotadas de características tão inusitadas se comparadas com as daquelas que eu vivia anteriormente. Eu O encontrei nos ônibus, em aulas, em reuniões, em confraternizações e no silêncio do meu quarto. Eu O encontrei nos momentos felizes, bem como naqueles dias em que tudo estava de mal a pior e eu só tinha a Sua companhia. Assim, aquele Deus tão metafísico dava lugar ao que foi apresentado por Jesus, um Deus que se encarnou por completo, que se relacionou, se identificou e participou de uma sociedade sendo relevante nela. Deus está no concreto.

Encontrar Deus no concreto é voltar a dar importância a todos os que estão ao redor. É entender que o Eterno não está confinado em um galpão, Ele nos fez igreja para que pudéssemos nos manifestar com amor e graça em todo lugar. Sendo assim, tão edificante quanto estar com outros cristãos em determinado lugar - por mais que isso seja imprescindível - é estar com muitos outros amigos e familiares que talvez não sejam cristãos; é estar com o diferente, e de coração aberto, humildemente, aprender com todos eles. Encontrar Deus no concreto é se indignar com os zilhões de problemas sociais do nosso país e entender que a luta dos marginalizados também é nossa, porque ouvimos o Mestre dizer: "Está vendo todos eles? São seus irmãos, ame-os como você ama a sua própria vida!" Encontrar Deus no concreto é entender que Ele, sendo amor, não pode ser entendido por meio de uma vida religiosamente uniforme e solitária. Encontrar Deus no concreto é sacralizar a vida como um todo, considerando-a como a tela que o Eterno-Pintor insiste em colorir.

Em meio a essa realidade que dia após dia se descortina no seio da minha existência, tenho estudado sobre a vida do pastor Martin Luther King Jr., um grande exemplo para nós. Através de sua autobiografia, organizada pelo professor Clayborne Carson, tenho me inspirado através de suas indignações diante das chagas sociais de seu tempo. Na obra, há relatos da luta contra a segregação racial em diversas cidades do sul dos Estados Unidos, sendo Birmingham a que apresentava maior resistência por parte dos segregacionistas. Nesta cidade, King foi surpreendido por uma carta redigida por determinados pastores pedindo o fim das manifestações. Nesse contexto, o pastor escreveu uma longa resposta a fim de defender o que estava sendo feito por ele e os demais ativistas; uma inspiradora carta. Nela, King, entre outras coisas, lamenta a indiferença da Igreja da época:

"Em meio a uma vigorosa luta para livrar nossa nação da injustiça social e econômica, ouvi muitos pastores dizerem 'Trata-se de questões sociais nas quais o evangelho não tem nenhum interesse real'. E vi muitas igrejas se dedicando a uma religião totalmente transcendental que estabelece uma distinção estranha, não bíblica, entre corpo e alma, sagrado e secular. (...) Assim, com frequência a Igreja é uma voz fraca, improdutiva, com um som ambíguo. Assim, com frequência a Igreja é uma arquidefensora do status quo. Longe de ser ameaçada pela presença da Igreja, a estrutura de poder da comunidade em geral é consolada por sua aprovação silenciosa - e muitas vezes declarada - das coisas como elas são." (p.241-242)*

Diante de tudo o que tenho lido, posso dizer que o pastor Martin Luther King Jr. é, sem dúvidas, um grande exemplo de cristão que enxerga Deus e sua obra no concreto, e em meio a um forte contexto religioso marcado por mobilizações voltadas apenas ao plano espiritual - que exigem menos sacrifícios - é bom ser despertado por um referencial como ele.

Não digo tudo isso por não crer nos benefícios advindos do plano espiritual, eles são inegáveis, mas também é verdade o fato de que não temos uma fé viva se esta é completamente pautada em espiritualidades. O apóstolo Tiago, indaga (Tiago 2:14-17): Do que adianta eu dizer que tenho fé, se não tenho obras? Do que adianta dizer que tenho fé em Deus, e ao ver um necessitado nada faço no concreto? A fé sem nenhuma obra não tem vida, é morta. Ouso dizer, então, que a fé fundamentada em um Deus metafísico não é viva. O Eterno nos convida a viver o caminho da fé que vive, uma fé que nada contra a corrente da religiosidade e da espiritualização exacerbada que nos impede de dizer com clareza: Deus está aqui.



*CARSON, C. (org.). A Autobiografia de Martin Luther King. Tradução de: Carlos Alberto Medeiros. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Lua

Pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela. Quem é ela? Quem é ela? Eu vejo tudo enquadrado, remoto controle. (Adriana Calcanhotto)

Lembro que na minha infância tirar foto não era tão comum, era sinônimo de ocasião especial, momento que merecia ser eternizado em um álbum físico, e revisitado sempre que quiséssemos reviver o registro. Volta e meia eu pegava todos os álbuns de casa e através deles via momentos que antecederam meu nascimento, minhas mudanças e a das pessoas que estavam ao meu redor, sorrisos, abraços, festas, viagens. Uma aula sobre o vivido. 

Hoje, com um smartphone em mãos, todo mundo é um incansável fotógrafo. Com esforço menor, momentos também são registrados, mas há menor probabilidade de se eternizarem, porque com a mesma facilidade da captura, há grande chance de ocorrer descarte definitivo. As fotografias atuais raramente se tornam físicas, e a revisitação do vivido se tornou dependente da tecnologia, basta, portanto, um problema técnico para que tudo se perca, é um problemão. 

Com a facilidade dos nossos dias, suprimos os malefícios da nossa rotina frenética - que, por exemplo, nos impulsiona a viver desatentos ao mundo - com as fotografias prontamente encontradas nas redes. Pra que olhar para os lados se com meu aparelho posso ver as árvores da praça? Pra que olhar para o céu se ele também está no meu Moto G? 

Mas na natureza existe uma senhora que, por vezes, frustra os fotógrafos da modernidade líquida. A lua nos surpreende com sua beleza, a propósito, ontem ela estava linda demais. E eu acho tão engraçado quando tentam registrá-la e não conseguem, tudo o que aparece é um ponto branco. Imagino-a dizendo: Acha que eu me arrumei toda esta noite para você facilitar a contemplação dos outros? Quem quiser me ver que saia de seus esconderijos, que vá para rua, que acione os freios, que caminhe contra a corrente dos últimos dias. 

O tempo passa, e como diz Lulu Santos, tudo muda o tempo todo no mundo. Mas a grandeza da criação permanece apontando o sentido da vida. Certamente, assim como as misericórdias do Eterno, ela se renova todas as manhãs, adaptando suas mensagens às atuais necessidades. Talvez por isso em tantos momentos o Criador nos direciona: Olhe para as estrelas, observe os animais, contemple os lírios do campo. Mais que beleza, há sabedoria, verdades que não podemos perder de vista. 

sábado, 11 de março de 2017

Só vem

Eles então arrastaram seus barcos para a praia, deixaram tudo e o seguiram. (Lucas 5:11)

Um dia aparentemente como outro qualquer, pescadores repetiam o que determinava a rotina, redes ao mar. Certamente nem imaginavam que diante deles apareceria Aquele que mudou a história da humanidade. Em um contexto natural, sem nada de mirabolante, gente como nós foi chamada para caminhar com Deus. Não foi necessário o preenchimento de nenhum pré-requisito, apenas uma resposta ao convite. Resposta essa que, talvez, não foi marcada por palavras, mas apenas por atitudes. Deixaram tudo e o seguiram. 

Embora os doutores da lei teimem em dizer que não, acredito que a simplicidade da convocação dos discípulos se repete em nossos dias, não sei se com a intensidade que o Autor desejaria, porque infelizmente a religião atrapalha a visão de Seus grandes, nobres e humildes propósitos. Ansiando por uma estrutura lógica semelhante às suas razões, a humanidade traçou pré-requisitos meramente externos para os que desejam ser seguidores do Mestre. Regras sem respaldo concreto, imposições sem a consideração das individualidades que cada um carrega, ausência da sensibilidade do carpinteiro que entendia como ninguém a humanidade. 

Jesus não os convocou para os templos, não pediu a pronúncia de frases prontas, não os entregou uma lista de lícitos e ilícitos, não os desvinculou da realidade, apenas ofereceu graça e os conduziu ao caminho. Ali, o Rei humilde fez poesia com os piores dilemas, surpreendeu com ações do cotidiano, ensinou com diálogos direcionados a quem vivia a margem da sociedade. Ele foi onde ninguém queria ir, às comunidades não pacificadas dos dias atuais, ao sertão nordestino, à cracolândia, aos ribeirinhos, aos presídios. Com Cristo, o chão que recepciona o árduo suor humano é a escola que nos torna semelhantes a Ele. 

Jesus valoriza o que é interno, inverte-se a ordem. O templo passa a ser eu, o Amor me invade e concede a habilidade para fazer artesanato com a matéria bruta da vida. Ele nos faz pintores do que antes era desbotado, um trabalho conjunto, Mestre e discípulos dando sentido ao que se ouve, se lê, se vê, se vive. Tudo isso fundamentado em graça, não há valor a ser pago, houve definitiva e completa quitação de dívida no madeiro. Isso é, de fato, um absurdo para nós, acostumados com a ideia de que nada que é bom vem de graça, que entende a justiça com base na troca, na meritocracia. Temos, no entanto, muito o que aprender com o Criador... só nos resta responder ao seu convite, com ação, com coração, e com Ele ir tocando em frente. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Amar é missão

Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (I Coríntios 13:7)

Viver pode ser como abrir lentamente os olhos, tudo vai ficando mais nítido graças às vozes que ouvimos, aos livros que lemos, aos relacionamentos que conquistamos, às perdas, às decepções. Nesse processo evolutivo muitas das nossas crenças são deixadas de lado, por vezes nos envergonhamos da sequidão de nossas velhas ideias e do demasiado valor que dávamos ao que era embaçado. É duro abrir mais um pouco os olhos e perceber que compramos briga em nome do que não enxergávamos muito bem, a vida é nítida, tem cores vivas, e talvez seja uma pena perceber isso quando já é tarde demais. 

Complicado é notar que junto com as nossas velhas concepções queremos também abandonar ou desvalorizar quem ainda não consegue ver a vida da forma como a temos enxergado. Se fôssemos um dos personagens do Mito da Caverna de Platão, não voltaríamos para falar da realidade da luz, partiríamos em direção a ela e deixaríamos pra trás os que ainda se contentavam com as sombras. Ou então voltaríamos, mas com a altivez de quem precisa estar por cima. Não se deixe enganar, nós, de fato, precisamos ter o amor como mandamento, porque infelizmente ele não faz parte da nossa natureza. 

Amar é missão, parece que não há verdade nisso porque quando pensamos na nobreza de tal sentimento trazemos à memória pessoas que escolhemos amar. Mas podemos perceber que o buraco é mais embaixo quando nos deparamos com os que não pensam como nós, os que escolhem viver de forma oposta ao nosso estilo de vida, os que não têm nada a nos oferecer, nem mesmo amor. É um árduo desafio, precisamos conviver, nos colocar no lugar, lembrar que um dia éramos como elas (ou poderíamos ser), porque o amor está além do egoísmo, do individualismo, das nossas preferências. Amar é mandamento, é profundo, não se limita aos nossos frustrados conceitos. O amor é o esclarecimento que vai chegando conforme o movimento de nossas pálpebras, no fim, certamente estaremos convencidos de que vivê-lo é, de fato, a melhor opção. Que não seja tarde demais.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Eu, Pedro


Você se revelou a mim. Hoje, quando reconheço sua grandeza, me ponho a pensar no que te motivou a vir ao meu encontro. Eu nada tinha, muito menos tenho agora. Sempre menor, sempre alvo das aflições da vida, incompreendido, ignorado, uma piada. Em um dia comum, tão comum que nem mesmo me lembro da data, te encontrei pela primeira vez. Não, eu não me movi em sua direção, eu não procurei por nada diferente, eu apenas vivia. Mas você veio e me fez ouvir, com o meu coração, a sua amorosa voz pela primeira vez.  "Eu vim te fazer alguém melhor, apenas vem comigo", você disse. Não entendi muito bem, eu estava cheio de imaturidade, mas a minha alma te reconheceu, e naquele momento nada mais importava, eu nada disse, apenas acompanhei o teu nobre caminhar. 

Te acompanhar, no entanto, sempre foi um desafio diário, até hoje não entendo muitas das tuas palavras, dos teus comportamentos, das tuas escolhas. Mas confesso que tudo em você me ensina e concretiza aquilo que me foi oferecido em nosso primeiro encontro, até mesmo aquelas situações embaraçosas que você me deixa passar. Elas não são raras, as vezes parece que é tudo programado, vou remando o meu barco com tranquilidade quando, de repente, as cores escurecem e ondas agitadas veem em minha direção. O futuro é onda, as pessoas são ondas, o que quero é onda, eu sou onda. E o medo me toma de tal forma diante delas que te confundo com um fantasma, não te reconheço, me sinto só e perdido. Preciso da tua intervenção outra vez, e você, Amigo, prontamente vem e diz mais uma vez: "Eu vim te fazer alguém melhor, apenas vem comigo". A minha alma te reconhece novamente, eu caminho no impossível olhando nos teus olhos.

As vezes, porém, como consequência das minhas imperfeições, resolvo tirar os meus olhos dos teus, não presto mais atenção em ti, os direciono às velhas ondas. Elas fazem muito barulho, teimam em chamar minha atenção, e, como um tolo, acredito que posso lidar sozinho com elas, tenho a impressão de que os meus pés podem me sustentar agora. Nesse momento, em desespero, afundo, e percebo que estou enganado, pois o que me sustenta na caminhada é olhar para ti. Olhar para esperança, para o amor, para a criação que testifica a sua perfeição. Mas parece ser tarde demais, as águas me empurram para baixo, fundo do poço.

Entretanto, minhas infidelidades não mudam aquilo que você sentia quando me viu pela primeira vez, você insiste e intervém outra vez na minha existência. Sabendo que agora nada posso fazer por mim mesmo, não vens com um convite, antes estendes a tua mão e me traz de volta para o lugar que eu nunca deveria ter saído. Na superfície, vejo em você uma intensa luz que descortina toda a minha vida e me mostra que mesmo caminhando contigo meus pés nunca deixarão de falhar. Sou eternamente dependente, isso me traz segurança. Sou eternamente amado, independente de quem sou, isso me cura. Sou Pedro, e o  meu desejo é que assim como insistes em fazer de mim alvo da tua bondade, eu insista em contigo caminhar.