sábado, 11 de março de 2017

Só vem

Eles então arrastaram seus barcos para a praia, deixaram tudo e o seguiram. (Lucas 5:11)

Um dia aparentemente como outro qualquer, pescadores repetiam o que determinava a rotina, redes ao mar. Certamente nem imaginavam que diante deles apareceria Aquele que mudou a história da humanidade. Em um contexto natural, sem nada de mirabolante, gente como nós foi chamada para caminhar com Deus. Não foi necessário o preenchimento de nenhum pré-requisito, apenas uma resposta ao convite. Resposta essa que, talvez, não foi marcada por palavras, mas apenas por atitudes. Deixaram tudo e o seguiram. 

Embora os doutores da lei teimem em dizer que não, acredito que a simplicidade da convocação dos discípulos se repete em nossos dias, não sei se com a intensidade que o Autor desejaria, porque infelizmente a religião atrapalha a visão de Seus grandes, nobres e humildes propósitos. Ansiando por uma estrutura lógica semelhante às suas razões, a humanidade traçou pré-requisitos meramente externos para os que desejam ser seguidores do Mestre. Regras sem respaldo concreto, imposições sem a consideração das individualidades que cada um carrega, ausência da sensibilidade do carpinteiro que entendia como ninguém a humanidade. 

Jesus não os convocou para os templos, não pediu a pronúncia de frases prontas, não os entregou uma lista de lícitos e ilícitos, não os desvinculou da realidade, apenas ofereceu graça e os conduziu ao caminho. Ali, o Rei humilde fez poesia com os piores dilemas, surpreendeu com ações do cotidiano, ensinou com diálogos direcionados a quem vivia a margem da sociedade. Ele foi onde ninguém queria ir, às comunidades não pacificadas dos dias atuais, ao sertão nordestino, à cracolândia, aos ribeirinhos, aos presídios. Com Cristo, o chão que recepciona o árduo suor humano é a escola que nos torna semelhantes a Ele. 

Jesus valoriza o que é interno, inverte-se a ordem. O templo passa a ser eu, o Amor me invade e concede a habilidade para fazer artesanato com a matéria bruta da vida. Ele nos faz pintores do que antes era desbotado, um trabalho conjunto, Mestre e discípulos dando sentido ao que se ouve, se lê, se vê, se vive. Tudo isso fundamentado em graça, não há valor a ser pago, houve definitiva e completa quitação de dívida no madeiro. Isso é, de fato, um absurdo para nós, acostumados com a ideia de que nada que é bom vem de graça, que entende a justiça com base na troca, na meritocracia. Temos, no entanto, muito o que aprender com o Criador... só nos resta responder ao seu convite, com ação, com coração, e com Ele ir tocando em frente. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

Ainda sobre o amor

All you need is love, love. Love is all you need. (The Beatles)

Amar não é pra quem vive em função do próprio umbigo, é pra quem entende, como lembra o poeta Tom Jobim, que é impossível alcançar a felicidade em meio a solidão. Quem ama escolhe depender, vê no coração alheio um ninho, e por mais que exista a liberdade para alcançar lugares distantes, um pouco de nós fica lá. Dessa forma, somos uma peça de quebra cabeças andando por aí, o melhor lugar do mundo se torna incompleto, não há proveito nas belas paisagens se só temos a certeza da nossa contemplação. Não há graça no cotidiano, ainda que diante de nós estejam as melhores piadas. Os dias perdem o sabor, mesmo com as melhores comidas. As canções desafinam, desagradam. 

Amar é pra quem aprendeu a ser vencido, pra quem abandonou a autossuficiência, a própria razão. De repente, faz-se o que antes não era feito, tolera-se o antes intolerável, perde-se o medo de ver morrer algo por dentro, tudo em troca de uma boa reação da outra parte. Como diz Camões, um cuidar que ganha em se perder. Amar é pra quem aprendeu a ser um não sendo, a sentir na pele a ferida que não é nossa, a gargalhar cócegas feitas em outrem, a lutar pelo o que não é nosso. É interpretar olhares, entonações, silêncios. É seguir pegadas feitas na areia, compreendendo o peso, o ritmo e a história de cada uma delas. Amar é confessar erros, é ouvir sermões, é evitar conflitos infrutíferos. É força que poetiza, diviniza, aproxima a vida do céu. 

Mas o amor tem escorrido, tempos líquidos, já dizia Bauman, tempos de frieza, profetizava o Cristo, tempos de indiferença. Extremos chegam ao poder com muros e sementes radioativas, não há diálogo, há silêncio diante do fundamentalismo, vida descartável, dinheiro, regresso à Lei de Talião, exalta-se os fardados de 64, estamos perdendo o controle. Nobres e corajosos são os que ainda cantam o amor, mas é difícil encontra-los, sumiram até dos templos. Nesses dias, lamentavelmente, grande é a nossa pobreza. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Amar é missão

Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (I Coríntios 13:7)

Viver pode ser como abrir lentamente os olhos, tudo vai ficando mais nítido graças às vozes que ouvimos, aos livros que lemos, aos relacionamentos que conquistamos, às perdas, às decepções. Nesse processo evolutivo muitas das nossas crenças são deixadas de lado, por vezes nos envergonhamos da sequidão de nossas velhas ideias e do demasiado valor que dávamos ao que era embaçado. É duro abrir mais um pouco os olhos e perceber que compramos briga em nome do que não enxergávamos muito bem, a vida é nítida, tem cores vivas, e talvez seja uma pena perceber isso quando já é tarde demais. 

Complicado é perceber que junto com as nossas velhas concepções queremos também abandonar ou desvalorizar quem ainda não consegue ver a vida da forma como a temos enxergado. Se fôssemos um dos personagens do Mito da Caverna de Platão, não voltaríamos para falar da realidade da luz, partiríamos em direção a ela e deixaríamos pra trás os que ainda se contentavam com as sombras. Ou então voltaríamos, mas com a altivez de quem precisa estar por cima. Não se deixe enganar, nós, de fato, precisamos ter o amor como mandamento, porque infelizmente ele não faz parte da nossa natureza. 

Amar é missão, parece que não há verdade nisso porque quando pensamos na nobreza de tal sentimento trazemos à memória pessoas que escolhemos amar. Mas podemos perceber que o buraco é mais embaixo quando esbarramos com os que não pensam como nós, os que escolhem viver de forma oposta ao nosso estilo de vida, os que não têm nada a nos oferecer, nem mesmo amor. É um árduo desafio, precisamos conviver, nos colocar no lugar, lembrar que um dia éramos como elas (ou poderíamos ser), porque o amor está além do egoísmo, do individualismo, das nossas preferências. Amar é mandamento, é profundo, não se limita aos nossos frustrados conceitos. O amor é o esclarecimento que vai chegando conforme o movimento de nossas pálpebras, no fim, certamente estaremos convencidos de que vivê-lo é, de fato, a melhor opção. Que não seja tarde demais.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Playlist: Sê Valente - Marcos Almeida


O medo se vai quando
ouço a voz do alto e me dizer:
Sê valente!

A vida não é fácil, quando nos dispomos a subir os seus degraus, ela sempre exige que deixemos algo para trás, sacrificamos em nome da felicidade proveniente das conquistas. Isso requer coragem, porque o medo é a insistente companhia de quem se encontra na encruzilhada das novas decisões. Somos como os soldados israelitas diante de Golias, tememos as ameaças da vida, ficamos atônitos diante do que se agiganta a nossa frente. Mas, assim como Josué ouviu, ainda é possível desfrutar da voz encorajadora que diz: Seja forte, seja corajoso, Eu estou contigo onde você for. 

Pois é, não estamos sozinhos com o medo, a Voz do Alto se faz presente diante de cada novo desafio. Eu admiro a Sua companhia, porque Ela não toma a nossa frente, apenas nos enche da força necessária para irmos de encontro ao que nos desafia, e com a simplicidade de uma funda nos faz avançar no grande tabuleiro da vida. O medo perde a vez, o gigante cai, adquirimos autoconhecimento, percebemos que somos capazes de viver bem com aquilo que temos, não precisamos das armaduras e das armas dos outros, temos as nossas, e elas podem até parecer menos sofisticadas, mas nos levam ao caminho que devemos trilhar. 

É sobre essa realidade que medito quando ouço uma das grandes composições do Marcos Almeida, cantor e compositor mineiro que nos enriqueceu com o que ele mesmo chama de música brasileira de raiz cristã. Suas canções muito contribuem para um diálogo cada vez mais forte entre fé e cultura, algo que julgo ser de grande necessidade para os nossos dias. Sou grande admirador de seus trabalhos, seja através do Palavrantiga ou de sua carreira solo. A música que vos apresento tem grande significado pra mim, pois me faz voltar para um dos momentos mais difíceis da minha história até aqui, diante de tantas incertezas, eu também pude ouvir a Voz do Alto, e Ela fez comigo o que vem fazendo na vida de tantos homens e mulheres que se dispõem a ouvi-La. A Voz do Alto nos encoraja a viver. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Um beijo na gratidão

Mas ao que nada espera, tudo o que vem é grato. (Fernando Pessoa)

Será que existe alguém que discorda que o ano que está terminando foi um tanto peculiar? Será que existe alguém que não parou, ao menos por um único instante, com a sensação de que estava vivendo uma espécie de pesadelo? Parece hipérbole, mas eu, de fato, vivi momentos assim, seja assistindo a acontecimentos a nível mundial ou nacional, seja sentindo o que acontecia em minhas particularidades. O ano que começou com a alegria de uma dança, chega ao fim com a ofegante respiração de quem percorreu uma árdua trajetória. E quando vejo nos meios de comunicação pessoas das mais variadas áreas tecendo o mesmo tipo de comentário, consolido tais sensações e percebo que não estou viajando na maionese. 

Nos dias que passaram, perdi alguns referenciais devido à amargura da decepção, reluto diante do rancor, não o quero em meu coração, não sei se ainda tenho espaço para novas cicatrizes, é bom evitar. Em contrapartida, abri os meus olhos como nunca antes, foi um mecanismo de defesa. Com uma visão melhor, enxerguei em meus ombros o peso de toneladas de regras e teorias, algumas delas de minha própria autoria, outras criadas por quem deixei pra trás, mas em todas elas estava a minha assinatura. Livrei-me de tudo aquilo, vivo alívio, abro as asas, mas acredito que ainda não voei. Em um alto lugar, insisto em procurar por mais tralhas que não quero carregar, tenho fome de leveza. Também tenho traçado rotas, limpei minha bússola, quero saber onde piso. Leve e seguro, só assim voarei. 

Aprendi a não colocar tanta expectativa nas pessoas, a não esperar por reciprocidade. Muitas delas procuram por uma romântica idealização, não suportam as imperfeições de nossas caminhadas, nos admiram enquanto não as descobrem, enquanto não nos conhecem bem. Existem exceções, como tudo na vida, mas são raras. No entanto, não abaixo a cabeça, não desvio mais o olhar, olho no olho, somos iguais, estamos sob o mesmo teto, trilhamos o mesmo caminho. Estou fazendo as pazes com minha história, tenho amado quem sou, isso me levou a queimar as capas que insisti em usar, larguei-as com a rapidez de Bartimeu e fui ao encontro do Filho de Davi, não sou mais o mesmo, minha esperança foi renovada. 

Chorei pelos amores estranhos que costumo atrair, também chorei pelos meus erros como nunca antes, sei que fui perdoado, mas não quero esquecer de nenhum deles para não perder de vista a verdade de que minha natureza é falível. Tenho voltado às raízes, aprendido a extrair o bem do mal. Olho para o céu e vejo o Pai de Amor, não Hitler. Tenho aprendido a respeitar cada ponto e vírgula que a vida desenha. Meus planos estão submetidos ao Autor, me basta ter o coração batendo. E precisaram vir dias de tantas surpresas e dificuldades para que eu pudesse crescer assim. Nesses últimos dias do ano, tenho dado um cheiro no cangote da esperança, mas convidei a gratidão para sair, comemorarei com ela o início de um novo calendário, ela será a dona dos meus beijos.